Com texto de Marco Antonio Deprá.
Em 1962, o cenário econômico brasileiro era marcado por uma profunda crise estrutural, caracterizada pela desaceleração do crescimento industrial, inflação galopante e grave instabilidade política, após o fim do ciclo desenvolvimentista do presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961).
A inflação começou a sair de controle, reflexo de déficits públicos elevados e emissão de moeda. Os preços de itens básicos, como os dos alimentos, tiveram aumentos expressivos, corroendo o poder de compra da população.
O governo do presidente João Goulart (Jango), que assumiu sob um regime parlamentarista, enfrentava forte oposição do Congresso, de setores conservadores e dos sindicatos, o que dificultava a aprovação de medidas econômicas. O clima era de incerteza, com Jango buscando apoio popular para as "Reformas de Base" (agrária, bancária, educacional).
O ano foi marcado por greves gerais, com trabalhadores exigindo reajustes salariais frente à inflação. A greve geral de 1962 foi um marco que precedeu a conquista do 13º salário, criado em 13 de julho daquele ano. Inicialmente chamado de “Gratificação de Natal”, foi uma conquista do movimento sindical. Foi nesta conjuntura que funcionários da agência 352-2 – Maringá (PR), do Banco do Brasil S/A – BB, decidiram fundar uma cooperativa de consumo, a fim de adquirir produtos a preços menores.
A iniciativa teve o apoio de Milton Mendes, gerente daquela agência à época, que também estimularia um grupo de cafeicultores a criarem a Cooperativa dos Cafeicultores de Maringá – Cocamar, fundada um ano depois, em 27/03/1963.
Assim, em 03/03/1962, foi fundada a Cooperativa de Consumo dos Bancários de Maringá Ltda., para comercializar produtos de primeira necessidade aos funcionários da categoria. Sua sede foi instalada em um prédio comercial alugado, situado na rua Deputado Néo Alves Martins, na esquina com a avenida Duque de Caxias, a uma quadra da agência do BB, localizada, à época, na esquina das Avenidas Duque de Caxias e XV de Novembro.
A loja tinha um aspecto de mercearia, estabelecimento comercial conhecido, naqueles tempos, como “Secos & Molhados”.

Um dos cooperados era Pedro Cezar Gomes Lemos, capixaba de Cachoeiro de Itapemirim, nascido em 10/08/1938, que, em 17/08/1961, com apenas 23 anos de idade, veio, do Rio de Janeiro, para tomar posse como funcionário do Banco do Brasil em Maringá. Passados quase quatro anos, casou-se com Nair de Campos, em 24/07/1965.
Após sua lua de mel, no Rio de Janeiro (RJ), o casal voltou a Maringá e fez a primeira compra para abastecer a despensa da nova casa.
Em 06/08/1965, eles foram até a Cooperativa de Consumo dos Bancários de Maringá Ltda. e fizeram uma compra de Cr$ 11.070 (cruzeiros), valor equivalente a 16,8% do Salário Mínimo Nacional, que era de Cr$ 66.000.
Nota Fiscal da Cooperativa de Consumo dos Bancários de Maringá Ltda., preservada no acervo de documentos de Pedro Cezar Gomes Lemos.
O cenário econômico brasileiro em 1965 ainda era adverso. Depois do Golpe Civil-Militar ocorrido em 31/03/1964, o governo federal havia criado o Programa de Ação Econômica, sob a batuta de Roberto Campos, ministro extraordinário para o planejamento e coordenação econômica.
Nos anos que se seguiram, o Plano possibilitou a redução do déficit público, através do aumento de impostos, e a redução da inflação, através de uma série de políticas, incluindo a de arrocho salarial, que reduziu o valor real dos salários. Por outro lado, o movimento sindical foi um dos mais atingidos pela Ditadura, com a proibição de greves, perseguição aos líderes sindicais e com a fundação de sindicatos fantasmas, que contavam com lideranças simpáticas aos militares.
O golpe civil-militar de 1964 acarretou sérias consequências para todo o movimento sindical no Brasil. As entidades tiveram suas sedes invadidas, com arquivos apreendidos, diretorias cassadas, presas e torturadas.
Em Maringá, o funcionário do BB, Jair Ferreira, munido de uma carta do Ministério do Trabalho, assumiu o sindicato, como interventor. Takaaki Sakamoto, que era o vice-presidente eleito, foi transferido para São Paulo e o presidente, Antonio Menezes, para uma agência do BB no Rio de Janeiro.
O movimento de 1964 instituiu intervenções em todos os sindicatos do País. Houve muitas demissões, punições e descomissionamentos de funcionários do BB ligados aos sindicatos, depois de “depurações” efetuadas pelas inspetorias do Banco.
Somadas todas essas conjunturas, a Cooperativa de Consumo dos Bancários de Maringá Ltda. não conseguiu sobreviver. Em meados de 1966, foi liquidada, pelo seu último presidente, Antonio Lázaro Teixeira, também funcionário do BB.
Passados mais de vinte anos da fundação da extinta Cooperativa de Consumo dos Bancários de Maringá Ltda., os funcionários do Banco do Brasil de Maringá se viam, novamente, em um cenário desafiador, muito parecido com o de 1962.
Em 28/05/1983, graças ao empenho de Elias Norberto da Silva, 68 funcionários do BB em Maringá e de outras agências da região, fundaram a Cooperativa de Consumo dos Funcionários do Banco do Brasil em Maringá Ltda. – Coofbram. Sua fundação deu-se em um cenário econômico caracterizado por inflação galopante, pouca oferta de produtos, reduzido poder de compra dos salários e supermercados operando com altas taxas de lucro.
Mas esta é outra história.