2012

O poeta Rodrigo Garcia Lopes entrevistou Arrigo Barnabé. O texto foi publicado pela revista Helena, em 2012. A conversa mostra um dos artistas que levaram para fora de Londrina uma inquietação musical formada na cidade entre o final dos anos 1960 e a década de 1970. Quando Arrigo e outros músicos, como Robinson Borba e Itamar Assumpção, chegaram a São Paulo, aquela produção passaria a ser associada ao que ficou conhecido como Vanguarda Paulista. Mas parte dessa história havia começado antes, no Norte do Paraná.
Arrigo nasceu em Londrina e recorda uma infância marcada pela diversidade cultural da cidade. Na rua Paranaguá, próximo à rua Sergipe, convivia com famílias japonesas, espanholas, russas e libanesas. Para ele, essa mistura ajudou a formar uma sociedade diferente e pode ter contribuído para uma espécie de “febre cultural” que atravessou a cidade.
Essa efervescência ganhou forma também na música. Em 1973, Arrigo participou com Itamar Assumpção e Robinson Borba do show Na Boca do Bode. Itamar, criado em Arapongas, amadureceu musicalmente em Londrina e depois seguiu para São Paulo. Arrigo faria movimento semelhante e alcançaria projeção nacional ao vencer o Festival Universitário da TV Cultura, em 1979, com Diversões Eletrônicas.
Pouco depois, o álbum Clara Crocodilo, lançado em 1980, tornou-se referência pela combinação de música popular brasileira com procedimentos atonais e seriais. Na entrevista, Arrigo lembra que ele e seus parceiros não se apresentavam como integrantes de uma “vanguarda”. Segundo o compositor, o termo foi difundido pelo jornalista Nelson Motta; a intenção dos músicos era simplesmente produzir algo contemporâneo, ligado ao tempo que estavam vivendo.
A ligação com Londrina, entretanto, nunca desapareceu de sua obra. Arrigo compôs músicas intituladas Londrina, Ibiporã e Tamarana e afirmou que buscava se reconhecer como alguém oriundo de uma cultura específica. Entre suas memórias estão o carnaval na avenida Paraná, os desfiles do Colégio Marista, a antiga igreja matriz e a primeira ida ao Cine Ouro Verde.
O percurso ajuda a inverter uma leitura comum. Nem toda inovação cultural produzida fora dos grandes centros nasceu neles depois de uma mudança de endereço. No caso de Arrigo Barnabé e de parte daquela geração, São Paulo ofereceu projeção. Mas algumas das experiências, referências e relações que alimentaram aquela produção já haviam sido construídas em Londrina.
Fontes: Revista Helena, nº 1, Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, 2012, entrevista de Rodrigo Garcia Lopes com Arrigo Barnabé / Foto: divulgação, Edson Kumasaka / Acervo Londrina Histórica.
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